Uma semana antes da nomeação, Nelson Teich defendeu que não deveríamos gastar com ventiladores mecânicos

Uma semana antes da nomeação, Nelson Teich defendeu que não deveríamos gastar com ventiladores mecânicos e outros insumos para combater a Covid-19, doença causada pelo coronavírus Sars-Cov-2

Nelson Teich, nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) como substituto de Henrique Mandetta no ministério da saúde deixa bem claro que, quando se trata da saúde, é liberal, muito pragmático e que mesmo essa pandemia pode ser tratada como um grande negócio. Também desdenhou dos que defendem a atenção primária e básica como possíveis soluções para o sistema de saúde, afirmando que “quanto mais romântico, mais isso é repetido para a sociedade”

Nelson Teich Covid-19

Banner oficial do podcast, retirado diretamente do site Oncologia Brasil

Em entrevista a um webinar/podcast em 09/04/2020, exatamente uma semana antes de ser nomeado Ministro da Saúde, Nelson Luiz Sperle Teich, de 62 anos, médico oncologista e empresário bem sucedido da área de saúde fez afirmações que deixam muito claro que o indivíduo doente é o menos importante dentro do negócio gigantesco e milionário que se tornou a saúde no Brasil e no mundo. Suas falas demonstram um empresário que não foge ao estereótipo dos liberais ligados ao ministro Paulo Guedes – grupo do qual ele faz parte.

Tal qual o ministro da economia, suas falas além de muito pragmáticas para o momento soam bem impiedosas principalmente quando abordam apenas custos e investimentos em saúde.  Em nenhum momento ele leva em conta o principal: há muitas pessoas morrendo de Covid-19 e tanto médicos, quanto cientistas, sequer conseguiram calcular se a pandemia está chegando ao fim, se pode haver uma segunda onda de contaminações e se pessoas curadas podem se contaminar novamente.

Ao ouvir o sr. Teich, essas incertezas, bem como o custo social da perda de uma pessoa próxima, não parecem lhe preocupar, por isso separamos e transcrevemos aqui alguns trechos de suas falas para o podcast denominado: O IMPACTO DA COVID-19 NO MERCADO DE SAÚDE, do Grupo Oncologia Brasil Powered by MDHealth

  • Em determinado trecho do podcast, o médico afirma que:

“É um investimento enorme desnecessário…De repente vc dobra a tua quantidade de ventiladores mecânicos, o que você vai fazer com eles depois?”

  • Em outro momento, o agora ministro da saúde fala de sua experiência como gestor de investimentos:

“Hoje, a  minha dúvida (nessa crise) seria em que investir. O gestor não tem a obrigação, o papel dele não é acertar o que vai acontecer.”

  • Pouco depois do meio do podcast (que tem em torno de 1 hora) o médico se debruça sobre saídas para as indústrias de pesquisas em saúde:

“Esse é um momento de valorização da indústria. O que eu acho que deveria fazer, o que  vai acontecer com a indústria é transformar parte daquilo que é visto como custo, como sendo investimento”. Não dá para você achar que a indústria vai resolver o problema da saúde, ela tem seus interesses que tem que ser respeitados.”

  • Um pouco mais adiante ele disserta um pouco sobre atenção primária e básica

“A Atenção primária milagrosamente não vai resolver o problema das outras duas (alta e média complexidade). Vou te dar um exemplo prático: todo mundo diz aí que a atenção primária e básica resolve 80% dos casos. Eu fui procurar e não encontrei isso escrito em lugar nenhum e quanto mais romântico é, mais isso se repete para a sociedade.”
E sobre esse tópico concluiu dizendo: “Eu não fico tentando dizer onde é que eu tenho que botar o dinheiro antes de ter informação do retorno da iniciativa para saber como é que eu aloco.”

  • A conclusão final de Nelson Teich talvez revele o que pensa para sua gestão:

“Essa história de que o paciente é o centro isso é muito bonito de falar mas isso não acontece na prática, são escolhas e o modelo de como a gente vai trabalhar, porque o ganho econômico ele também é bom.”

Que o novo ministro não era um humanista, já era conhecido desde que fez parte do comitê de transição do governo Michel Temer para o governo Jair Bolsonaro. Entretanto, mesmo no dia 09/04 quando o Brasil já registrava 18.176 casos confirmados e 957 mortes, esse material demonstra a dureza e frieza com as quais o ministro enxerga o paciente.


Sobre a MD Health, empresa pela qual Nelson Teich fez essas afirmações:

md health nelson teich

A Oncologia Brasil é uma subsidiária da empresa MD Health, que em seu site afirma que OS PRINCIPAIS PLAYERS DO MERCADO FARMACÊUTICO são seus parceiros: AstraZeneca, Bayer, Bristol-Meyers, Eli Lilly, Janssen Cilag, Jhonson & Jhonson, Merck, Novartis, Pfizer, Roche, etc. Apesar de contar com diversos parceiros, a empresa se identifica como independente. As entrevistas e debates, em geral conduzidas pelo diretor-executivo Octavio Nunes em um condomínio na região da Berrini, distrito de escritórios de alto padrão na Zona Sul de São Paulo.

parceiros md health

Ainda sobre as opiniões emitidas pelo ministro Nelson Teich, as farmacêuticas consultadas não retornaram nossos contatos. No entanto, a empresa MD Health, gentilmente se manifestou em nota oficial, reproduzida aqui na íntegra:

O grupo MDHealth – que controla a Oncologia Brasil – é uma empresa de educação médica independente. O conceito, que é amplamente conhecido no setor da saúde, refere-se a iniciativas que buscam promover o ensino médico-científico de forma isenta e sem conflito de interesse.
Por meio de nossa plataforma multimídia, realizamos atividades – tais como publicação de notícias, webinars, cursos, etc. – com o principal objetivo de contribuir para a atualização contínua de profissionais da saúde, oferecendo um espaço plural para a troca de conhecimento e para debates que possam colaborar para os avanços da medicina.
Informamos que todo nosso conteúdo está pautado nas boas práticas jornalísticas, que prezam pela difusão de informações relevantes, de interesse público, mantendo a objetividade e respeitando a ética, a integridade, a imparcialidade e a liberdade de expressão.
Seguindo estes princípios, reforçamos que os comentários dos médicos e demais entrevistados em nossos canais expressam tão somente o ponto de vista de seus respectivos autores. O grupo MDHealth/Oncologia Brasil, portanto, não assume nenhuma responsabilidade legal advinda da utilização e disseminação dessas opiniões.

Em um momento como este, a MD Health demonstra humanidade ao não endossar as falas do ministro.
Já o silêncio ensurdecedor da indústria farmacêutica, a qual tentamos ouvir exaustivamente entre Abril e Maio de 2020, pode fazer inferir que o ministro apenas trouxe à tona o pensamento calculista que impera nesse setor.


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Diego Maquez É Jornalista, sonoplasta, técnico de som e radialista formado pelo Senac. Administrador e gestor de comunicação e semiótica formado pela Fatec-SP. Publicitário especializado em DAWs, edição de áudio e mídias eletrônicas formado pelo Objetivo. Pós-Graduado em servidores de streaming e icecast pela UnB. Programador e desenvolvedor de PHP, JS, XML, JSon Infra e Front-End (HTML5 e CSS3) por paixão. Técnico em soluções para podcasts e streamings AES67, AOIP e WebAudioAPI. Já prestou serviço para algumas das grandes rádios de São Paulo e está na Sens desde sua fundação. Além da Sens é integrante dos projetos Dissonante (UnB), RádioLivre, Podflix Brasil, A Pista Jornalismo e EastCast. Membro da Abraji, do The Trust Project, da Audio Engineering Society (AES), ISO Project Member, ABNT e INPI. Compartilha todo o seu conhecimento livremente e gratuitamente. Ainda disponibiliza as soluções que cria por Creative Commons.

1 thought on “Uma semana antes da nomeação, Nelson Teich defendeu que não deveríamos gastar com ventiladores mecânicos”

  1. RESPONDENDO AO MINISTRO EM RELAÇÃO AOS VENTILADORES MECÂNICOS:

    Sabe o que o senhor vai fazer com os ventiladores mecânicos, Se. Ministro, o senhor vai espalhar eles pelos 5.570 municípios do país, já que na grande maioria deles não possui condições de dar assistência e suporte respiratório a pacientes em estado grave, independente da doença, da idade, de sexo, etc.. Se o senhor conhecesse a realidade do Sistema de Saúde brasileiro, o senhor não faria afirmações como essa e não teria aceitado o cargo de Ministro. A realidade nos mostra que em muitos municípios, ao invés de equiparem as unidades de saúde, os políticos compram ambulância para levar os pacientes para outro município carente, sobrecarregando esta outra unidade. Ser Ministro de um país e não conhecer a realidade do sistema de saúde deste país é uma imbecilidade que nenhum médico deveria fazer. Ser médico não basta, precisa ser um estudioso da questão. E não afirmar levianamente que seria um investimento “enorme e desnecessário”, pq com certeza, não seria. Seria um investimento urgente, necessário e oportuno a despeito desta pandemia. O Brasil não é apenas Rio de Janeiro, São Paulo e grandes centros. O Brasil são todos os 5.570 municípios e todos os brasileiros precisam e merecem viver e ter uma assistência a saúde digna. Afinal, a Constituição garante que a Saúde tem que ser PÚBLICA, GRATUITA E DE BOA QUALIDADE.

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