Retrigger lança trabalho com 8 novas músicas

Denominado ‘O fim do mundo é o nome da mulher que eu amo’ é o novo trabalho e já está circulando nas plataformas digitais

Retrigger

Em um cenário no qual plataformas de streaming monopolizam a distribuição de música, e os dados que elas fornecem indicam que os estilos mais ouvidos no Brasil são sertanejo e funk, o artista mineiro segue fiel a estilos completamente diferentes destes.
Os mesmos dados demonstram que as músicas mais ouvidas no Brasil (que pertencem a esses estilos), são totalmente diferentes das músicas mais ouvidas em outros países da América Latina, América do Norte e Europa. Ainda assim, o músico que sempre cantou em inglês, pela primeira vez escreve e interpreta letras em português. Ou seja, em uma única tacada ele desafia os estilos vigentes em seu país de origem, e a barreira do idioma em outras praças.

Retrigger (ou Raul Retrigger, nomes artísticos de Raul Costa) é um dos projetos musicais mais interessantes no cenário nacional. É música eletrônica, mas que não se parece com música eletrônica e muito menos se parece com música nacional. Diferente da regra geral do estilo no eixo América do Norte/Europa, que vem há alguns anos privilegiando ambientações ao invés dos ritmos, o som é sempre abrasivo, não é fluído, tem as Batidas Por Minuto (BPM) altas, batidas quebradas e samples inusitados.

É um contraponto e uma espécie de resistência às vertentes atuais eletrônicas, como ambient music, retrowave e synthwave. Também não encontra correspondência em estilos mais modernos de house music, como deep house, afro house e indie dance, que têm as batidas extremamente lineares, linhas de baixo e teclados repetitivos, samples mais suaves e menos provocativos, tudo com o intuito criar um envolvimento quase hipnótico com o resultado final da produção, tornando tudo muito mais palatável.

A música eletrônica está cada vez mais palatável.

Comparado à música eletrônica mais comercial o som que Retrigger nos oferece não é tão palatável. Mas comparado ao que ele mesmo desenvolveu nestes 18 anos de carreira, pode-se afirmar isso. Porém mesmo atingindo a maioridade, o multi-instumentista que poderia ter feito algo diferente para celebrar este novo álbum, manteve basicamente o mesmo som sem concessões comerciais para comemorar.

retrigger Denominado ‘O fim do mundo é o nome da mulher que eu amo’, o novo trabalho já está circulando nas plataformas de streaming, as mesmas que têm dados que indicam que os estilos presentes no álbum não estão sequer entre os dez mais ouvidos por aqui. A pegada punk rockabilly meio caótica de trabalhos anteriores está um pouco mais organizada, isso se comparamos com os anos de 2010/2011, época da coletânea ao vivo ’10 Anos Tocando Para Amigos’, em que as apresentações eram literalmente incendiárias, pois além do joystick de vídeo game vintage, do teremim, dos controladores midis modernos e dos incontáveis fios e cabos embaraçados, tinha fogo de verdade rolando em espaços de 10 ou 11 m2, sempre lotados.

Além desse punk rockabilly, o breakcore do projeto, que soava como uma mistura de surf music com drum and bass, aqui temos algo levemente mais ameno, remetendo em alguns momentos ao rock alternativo de bandas como Black Keys ou QOTSA, sobretudo nas faixas onde Raul faz os vocais, como a faixa título e ‘Uma menina e um braço de mar’.

Reveza com ele nos vocais, especificamente no cover de Ain’t That Lovin’ You de Jimmy Reed, a cantora Stephanie Tollendal, (que é o momento Brand New Cadillac do álbum). Esta uma das melhores e que reforça o argumento de que Retrigger também poderia fazer bem à música eletrônica brasileira como produtor/remixer, tipo um Alok (só que sem ser bunda mole e preguiçoso). A mistura consagrada de samples de áudios de TV  e cinema toscos com teremim, está representada em O Satã apareceu e tem até um “momento Aphex Twin”, com a faixa Calafia.

Com este trabalho, Retrigger prova que mesmo diante das dificuldades de artistas completamente independentes (o que sempre resulta em sons mais palatáveis buscando o sucesso), dá para seguir produzindo coisas legais sendo fiel à verdade do seu som, sem muitas concessões às vertentes mais comerciais, sem fazer house, funk, ambiente music ou qualquer outro estilo que poderia aumentar consideravelmente seu público. No entanto; público não parece um grande problema nos shows, pois as apresentações ao vivo costumam ter seguidores fiéis (incluindo este que vos escreve).

Nessas apresentações ao vivo, que agora incluem músicas deste novo trabalho, o performático Raul continua mesclando algo tão avant-garde como o Ableton controlado por um Joystick e tão oldschool como um teremim, o que se não é inédito é no mínimo raro. E obviamente algo bem difícil de operar, ainda mais só de cueca, como acontece muitas vezes. Aspecto interessante é que além de difícil tecnologicamente, manter todo esse mix tecnológico e de referências diversas é complicado, requer muita engenharia e ordem em meio ao aparente caos. Necessita também cálculos, o que faz com que IDM (Intelligent Dance Music) seja um estilo que também pode classificar seu som.

Em meio a esse arsenal tecnológico anárquico e um cruzamento de referências e estilos que hora encontram e hora fogem de seu som, Raul faz tudo parecer muito fácil e divertido. Isso reflete no acabamento do álbum, já que ele não pesa a mão na produção e economiza na masterização sem cair na tentação de jogar um monte de filtros, reverberações e ambientações, priorizando um som mais cru, mais próximo do rock ao vivo por exemplo.

Usando uma sinestesia barata: se as produções mais pop são como açúcar refinado, Retrigger é como mascar a cana-de-açúcar, e é assim há 18 fucking anos. Se o projeto Retrigger fosse afeito ao apelo comercial poderia ser mais conhecido. Nem cana e nem açúcar, mas uma garapa por exemplo – que tem o mesmo sabor da cana só que é muito mais fácil de degustar. Certamente faria mais sucesso, mas seria uma experiência bem menos crocante e nada orgânica.


Serviço – Links:


Serviço – Ficha técnica:

Título: Retrigger: O fim do mundo é o nome da mulher que eu amo.
País: Brasil/Polônia
Tempo total: 00:29:41
Produção e masterização: Raul Costa Duarte
Composição: Raul Costa Duarte (Exceto faixa 7, por: Jimmy Reed)
Hassan K. – Guitarra na faixa 1.
Stephanie Tollendal  – Vocais em: Ain’t That Lovin’ You.
Gravadora: Istotne Nagr (Polônia)
Estilos: Electronic, Breakcore, Surf Music, Rockabilly, Psicodelia.
Capa e arte: Iwona Jarosz / Yes In Progress
Fotos: Isadora Luchtenberg
Maquiagem: Ana Pieroni


Serviço – Sobre Retrigger:

Na ativa desde 2001, Retrigger, também conhecido como Raul Costa Duarte, é um músico eletrônico brasileiro muito influenciado pela psicodelia, pela surf music e pelo rockabilly, que injeta diretamente em suas produções com ruídos e batidas pesadas. Essas composições também misturam o som 8-bit e a estética maximalista do breakcore. Embale tudo isso com retrofuturismo (theremin!), videogames e um tanto de humor, e dá para ter uma ideia do que Raul está fazendo. Sem mencionar suas performances ao vivo, literalmente incendiárias, que ele vem fazendo seminu há anos ao redor do mundo.


Diego Mesa Marquez é  jornalista, sonoplasta e radialista formado pelo Senac-SP. Técnico de som, eletrônica e programação pelo Cruzeiro do Sul. Publicitário Técnico e Designer pelo Objetivo e graduado em Gestão de Comunicação pela Fatec-SP. Atualmente é coordenador técnico da Rádio Sens, mas tenta dar pitacos sobre áudio, comunicação e semiótica na internet desde 1998.

4 thoughts on “Retrigger lança trabalho com 8 novas músicas”

  1. Pingback: My Homepage

Deixe uma resposta para itaCroth Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *