Daniel Guth e o problema dos líderes lineares no ciclo ativismo

Este texto começa com uma notícia complicada (e que nos questionamos muito antes de dar).

O escritor, colunista e cicloativista Daniel Guth renunciou hoje (14/09/2017) ao cargo de diretor geral da Associação Paulista de Ciclistas Urbanos da Cidade de São Paulo – Ciclocidade, após pressão das associadas.

Segundo a Rádio Sens apurou, o motivo se deu por agressões físicas e verbais cometidas por Daniel Guth contra uma jovem, em um evento em Recife. Batizado de Bicicultura, o evento é tido como o maior encontro nacional de mobilidade por bicicleta e cicloativismo e ocorreu entre 7 e 10 de setembro de 2017. A Sens irá preservar a identidade da jovem.

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Crédito: UCB

Nas últimas horas, Guth se antecipou à moção de repúdio interposta pelas associadas (cuja íntegra está no final desta reportagem), cancelou seu perfil no Facebook e trancou a conta no Twitter. Uma Reunião Geral Extraordinária da Ciclocidade foi convocada para esta quinta-feira na sede do Greenpeace em São Paulo que, segundo fontes, resultaria em sua destituição. Por isso lhe foi aconselhado que renunciasse.

Este episódio se soma a outros que demonstram a fragilidade do cicloativismo paulistano – maior, mais organizado e mais influente movimento do tipo no Brasil, sobretudo no que concerne ao comando de suas duas maiores associações, Ciclocidade e CicloBR.

Recentemente o Instituto CicloBR se viu envolvido numa eleição repleta de brigas e desentendimentos que culminaram na impugnação de uma chapa cujos integrantes alegam ter sido constituída legitimamente. O episódio manteve no cargo de presidente Hamilton Takeda, muito contestado por associados à época.


No fim de semana anterior à eleição, uma fonte da Sens flagrou na sede do instituto, a confecção de uma planilha que cruzaria os nomes dos associados e o tempo de associação, sendo que este critério foi preponderante para a impugnação da tal chapa, composta por cicloativistas influentes sendo um deles, doutor no tema pela USP.
A confecção de uma planilha em si não configura irregularidade, mas o instituto afirma que  “há cinco tipos de categorias de associados: Fundadores, Efetivos, Colaboradores, Beneméritos e Beneficiados e essa categorização é feita internamente”. Então na prática, quem pode votar é definido internamente, com a tal planilha ou outro documento semelhante.

Esses episódios ajudam a enfraquecer um dos pilares desse movimento, o Critical Mass (Bicicletada ou Massa Crítica), que defende estrutura não hierárquica, organizada porém descentralizada. Não é o que está acontecendo. Em ambos os casos os líderes – homens/hétero/cis/brancos – usaram prerrogativas e privilégios de seus cargos para cometerem atos questionáveis em pleno exercício de suas funções. Não são questões de foro íntimo e infelizmente esses desmandos não são fatos isolados dentro do movimento.

Cicloativistas influentes como Talita Noguchi e Luiza Poli, proprietárias do bar e bicicletaria Las Magrelas em Pinheiros, há algum tempo vêm alertando sobre o machismo e disputa de classes que rola neste meio. Em um longo e bem fundamentado texto de 2016 publicado no extinto site Saúva, em parceria com Sabrina Duran, elas denunciavam como o movimento se tornou preponderantemente hétero, masculino e de classe média. O texto foi imediatamente associado como uma crítica às diretorias desses institutos. Quando as questões levantadas pelo texto eclodiram, a Ciclocidade disse estar atenta e ressaltou que havia um “GT (grupo de trabalho) de gênero” criado em 2015. A associação foi criada em 2009 ¯\_(ツ)_/¯.

Uma consequência visível disso tudo é o esvaziamento das Bicicletadas, que salvo eventos trágicos ou de vulto, vêm perdendo participantes mês a mês (os encontros acontecem nas últimas sextas-feiras de todo mês), sobretudo as mulheres. Vemos cada vez menos mulheres nas Bicicletadas e nos protestos.

Soma-se a isso, as críticas dos participantes das regiões mais periféricas de São Paulo, como a Zona Leste e Norte. As queixas dão conta de que o movimento (sobretudo esses institutos),  não atua nas periferias com o mesmo empenho que nas regiões mais centrais de São Paulo. Ciclistas dessas regiões dizem que contam apenas com suas próprias vozes para reivindicar por melhorias junto ao poder público, como a infame ligação ciclística com o Centro da cidade, no caso da Zona Leste.

Os episódios recentes infelizmente jogam ainda mais luz sobre atuação de homens ególatras nessas instituições, já que no caso de Daniel Guth, o escritor sempre foi muito influente para questões de mobilidade urbana, se apresentando como consultor da área. É titular de colunas em jornais de grande circulação como Huffington Post e Folha de São Paulo, dando entrevistas a quase todos os grandes veículos de mídia, como Estadão, CBN e Rede Globo. Já no caso de Hamilton Takeda eventos importantes como Ciclofaixas de Lazer e Desafio Intermodal estão sob sua responsabilidade.

Esses eventos configuram outro ponto nevrálgico, contestado por quase todos os ciclistas que se envolvem mais politicamente com a causa e é fruto de diversas discussões: os patrocínios dessas instituições.
O chamado greenwashing promovido por bancos como Itaú (Ciclocidade) e Bradesco (CicloBR), faz com que essas instituições se tornem empresas com estrutura financeira, contábil e tudo o mais.
O problema é que financeiramente isso está fazendo bem para essas associações e, numa estrutura hierarquizada, faz ainda mais bem para suas lideranças, mas isso não está se traduzindo em melhores condições para o já tão maltratado ciclista urbano.

Haja pára-barros e pneu de cravo para se segurar nessa lama. 

logo itau #issomudaomundo

Itaú: bancando quase todo o cicloativismo. Crédito: Itaú

Pneu bike lama

Crédito: PedaLama

 


Leia a integra da moção de repúdio do ato de machismo:

“Nós, mulheres cicloativistas – associadas à UCB e membras do GT gênero da UCB, associadas à Ciclocidade e membras do GT Gênero da Ciclocidade, associadas a outras instituições cicloativistas do Brasil e aquelas não associadas à qualquer instituição – presentes no Bicicultura Recife 2017 viemos a público denunciar à União de Ciclistas do Brasil e à Ciclocidade e repudiar o ato de agressão contra uma mulher cometido pelo Diretor-geral da Ciclocidade, durante o evento. O grupo de mulheres supracitado entende que esse tipo de ação é contrário aos princípios da UCB que se pautam, entre outros, pela equidade de gênero e respeito aos direitos humanos. Assim, se torna incompatível a vinculação da Ciclocidade como Associada Instituição Atuante da UCB enquanto a mesma estiver representada pelo atual diretor. Neste momento, em que cada vez mais discutimos o feminismo no meio cicloativista e que vemos mais mulheres colocando suas vozes em espaços antes tradicionalmente ocupados por homens, reforçamos que seguiremos juntas na luta contra o machismo, esteja ele nas ruas ou dentro das nossas instituições. Aguardamos que a Ciclocidade e a UCB deliberem, com a competência que lhes cabe, sobre o ocorrido e tomem as medidas institucionais necessárias para garantir a inadmissibilidade de casos de violência, em especial violência de gênero, no nosso meio.”

moção daniel guth bicicultura

Link direto aqui.


Leia na integra o texto de Talita Noguchi, Luiza Poli e publicado por Sabrina Duran:

Cicloativismo paulistano: hétero, masculino e de classe média

Por Talita Noguchi

Com colaboração de Luiza Poli Franco

 O uso da bicicleta como meio de transporte sempre existiu no Brasil, em especial por ser um modal de baixo custo. A história do cicloativismo é mais recente, mas mesmo assim, só em São Paulo, tem mais de duas décadas. As demandas políticas começaram a existir através da auto-organização da sociedade civil para que houvesse uma infraestrutura mínima capaz de viabilizar, de forma mais organizada e factível, o uso desse modal numa metrópole conhecida por dar prioridade aos carros. Esse movimento inicialmente se caracterizou por demandar compartilhamento das vias públicas, respeito no trânsito e também pela ação direta, que na última década foi impulsionada pelas Bicicletadas, encontros mensais que se dão até hoje na última sexta-feira de cada mês, saindo da Praça do Ciclista, na avenida Paulista. Essa praça, inclusive, teve sua existência legitimada por meio das demandas de cicloativistas junto à administração pública alguns anos atrás.  Legitimidade que mostra a força da organização coletiva.

 Essa ação não foi a única. Dela surgiram inúmeras ramificações, cada uma cuidando de um recorte específico da bicicleta na cidade, como por exemplo o coletivo Pedal Verde, que geria atividades de plantio de árvores em espaços urbanos; e o coletivo Pedalinas, que dava um recorte de gênero à questão do cicloativismo promovendo oficinas comunitárias para e por mulheres.

 No centro das atenções se colocavam as vantagens desse modal ao público, para assim gerar a reflexão de como uma cidade deveria se estruturar, de modo a não estar fundamentada apenas no carro, que, além de extremamente individualista e incentivador do consumismo, também apresenta impactos negativos em âmbito local e global. 
Com o passar do tempo o cicloativismo em São Paulo foi se fortalecendo, e as questões críticas acerca desse movimento urgem ser apresentadas e discutidas.

 Gênero, raça, classe e neocolonialismo

 Como tudo que cresce e resiste, o cicloativismo deve ser periodicamente revisto, repensado e contextualizado.
 Ao longo dos últimos anos esse ativismo se mostra cada vez mais como uma demanda somente de infraestrutura, que tem toda a razão de ser ao questionar a carrocracia. Mas, ao mesmo tempo, por esse foco exclusivo, não consegue atravessar questões como gênero, raça, classe e neocolonialismo. Tanto é assim que a fundação e participação de coletivos que têm o cuidado de observar esses aspectos são marginais às discussões daqueles que se institucionalizam para cuidar da ciclomobilidade na cidade.

 Reflexões centrais – e não meramente pontuais ou tokenistas – [1] no âmbito do cicloativismo paulistano sobre as necessidades de mulheres, pessoas negras e em situação de vulnerabilidade social são vistas como secundárias. Esse fato demonstra o domínio do discurso cicloativista por grupos hegemônicos – homens cisgêneros brancos, heternormativos e de classe média, majoritariamente – acríticos em relação às desigualdades que conformam a sociedade.

 O greenwashing que foi habilmente construído nos anos 1990, renova-se em bikewashing e no que for necessário para a adesão desse público.
É interessante notar que o movimento cicloativista institucionalizado se fortaleceu nos últimos quatro ou cinco anos, tanto devido à adesão crescente de uma população localizada no centro expandido, quanto aos estímulos dados pela administração do prefeito Fernando Haddad (PT) e de incentivos vindos de empresas privadas, destacando-se o gigante Itaú-Unibanco. [2]

 Esses três fatores podem ser analisados com alguma minúcia para entendermos melhor os caminhos que esse ativismo vem tomando e que podem ser aplicados a muitos outros ativismos, pois refletem um modus operandi de absorção de discursos ativistas por políticos e empresas, que já notaram a força desses movimentos e, ao mesmo tempo, a fraqueza de uma sociedade que não está acostumada a se auto-organizar. 


 Cicloativismo lobista

 A população do centro expandido de São Paulo muitas vezes tem dificuldades de entender que ciclovias e ciclofaixas não são suficientes para promover mudanças estruturais. Em uma sociedade com crescentes desigualdades, mulheres continuam sendo as mais assediadas e agredidas no uso desse modal; as áreas com ciclovia passam por inúmeras mudanças que levam ao aumento do aluguel e do custo de vida de uma região, gerando, assim, a expulsão gradual daqueles e daquelas que não têm poder aquisitivo para suportar a elevação dos preços.

 É notável que quando os grupos hegemônicos cicloativistas tiveram, ao longo da última administração municipal, algumas de suas demandas atendidas, eles se tornaram reativos a visões mais críticas sobre certos aspectos da gestão Haddad. Essa administração teve pontos positivos, mas ao mesmo tempo manteve posturas higienistas que oprimem diretamente a população em situação de rua, sabidamente vulnerável. Em diversos trechos a construção de ciclovias aconteceu – e segue acontecendo nesse exato momento na região do Ceagesp – a expulsão dessa população das ruas [3].

 Ao fechar os olhos a essas violações de direitos humanos, o cicloativismo atua como um movimento lobista, realizando manobras em causa própria e optando por não pensar na sociedade como um todo.

 Banco Itaú, pai generoso do cicloativismo hegemônico

 Desde 2012, a participação do banco Itaú no âmbito da mobilidade por bicicleta tem sido quase onipresente em São Paulo e outras capitais, com o patrocínio a instituições, sites, eventos e lançamentos de livros e pesquisas sobre bicicleta. E não é só nesta seara pública que o banco vem se imiscuindo. Hoje sabemos, por exemplo, que o Itaú está presente na violenta reforma do ensino público em âmbito nacional [4] e nas modificações urbanas gentrificadoras no centro da capital paulista [5] – inclusive passando por cima das populações vulneráveis [6].

 Um movimento como o cicloativismo institucionalizado, que tem grande parte das suas ações viabilizadas por uma empresa claramente elitista e antidemocrática, não pode se dizer a favor de um mundo mais acessível e humano, capaz de prover uma cidade para pessoas, dado que esse mesmo movimento parece não entender seu papel reforçador na construção de uma cidade inacessível para aqueles que são tidos como “outros”.

 A não hegemonia existe

 Obviamente esse movimento não é tão homogêneo quanto parece, apesar do discurso apocalíptico que pretende mostrar um único caminho para viabilizar o uso da bicicleta enquanto modal de transporte amplamente disseminado. Existem grupos não hegemônicos que não se pautam por caminhos únicos e nem por discursos fatalistas que dizem ser o aceite de dinheiro de banco e o alinhamento a políticas claramente higienistas a única maneira de viabilizar e manter ações pró-bicicleta.

 Existem grupos não institucionalizados que formulam propostas para além das mudanças de infraestrutura e que reconhecem existir questões muito mais críticas do que simplesmente a implementação de formas de se locomover pela cidade. Esses grupos entendem que o acesso à cidade não pode estar desvinculado da reflexão central sobre desigualdades sociais, e que a questão da mobilidade é apenas uma entre tantas, e que estas questões colocam-se simultânea, sistêmica e estruturalmente.

 Interseccionalidade x pensamento único

 É premente para qualquer ativismo contemporâneo contemplar, de forma central, as discussões sobre classe, raça, gênero e neocolonialismo em suas ações. Sem abordar esses temas estruturais e estruturantes, é grande a probabilidade de se perpetuar o status quo e de permitir que o discurso ativista seja fagocitado por grupos econômicos que agridem, violentam e calam em prol de uma cidade mais humana para poucos.


 É um desafio repensar os ativismos de forma a não se ensimesmar.
 Não é cabível que grupos hegemônicos – brancos, masculinos, cisgêneros, heteronormativos e de classe média – discutam somente entre os seus questões acerca da infraestrutura de toda a cidade, e nenhum grupo pode se fazer cego frente às desigualdades que se apresentam. A realidade contemporânea traz indícios de que as mudanças continuarão vindo de grupos que acabam trabalhando só em benefício próprio – ainda que de forma ingênua.

 Frases como
“a revolução virá de bicicleta”, 
“a revolução será feminista” 
ou “a revolução será xis ou não haverá revolução”
, mostram que é preciso refletir mais, tanto por seu formato de slogan midiático e superficial, quanto por não passarem a mensagem de que o trabalho para as mudanças estruturais é árduo e não pode estar está contemplado em uma única frente de ação – muito menos em um único grupo.


 O desafio está na interseccionalidade das discussões e na organização de quem atua coletivamente como um corpo político que entende a sociedade como um todo a ser protegido, e não como grupos específicos a serem protegidos. E isso necessariamente inclui o tratamento diferenciado de cada questão de acordo com as desigualdades apresentadas, resguardando os mais vulneráveis e não o contrário.
 Demandas de infraestrutura são necessárias e devem existir, mas é preciso voltar ao início, à raiz das discussões, onde se propunha que a rua fosse de todas as pessoas.

Link Direto aqui


A Rádio Sens entrou em contato com os envolvidos. A Ciclocidade disse que só se manifestaria em nota, que está nas redes sociais da Associação. Daniel Guth não respondeu e ainda estamos entrando em contato com o CicloBR.

Última atualização: 17/09/2017

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